03 setembro 2005

Para meditar...

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"O Mundo espanta-se com o cenário de New Orleans. A tragédia foi grande, sem dúvida. Os efeitos do furacão ‘Katrina’ ultrapassaram tudo o que podia ser previsto. Mas pior do que a passagem do ‘Katrina’ foi o período que se lhe seguiu.

O mais rico e importante país do Mundo exibiu sinais de fraqueza incompreensíveis. A falência do socorro aos sobreviventes e feridos. Os EUA, provavelmente abalados pelo choque do furacão, não souberam avaliar com rigor o quadro da tragédia que se tinha gerado e a mobilização de esforços dos outros Estados da América foi tardia, atabalhoada e lamentável.

Os socorristas não chegaram para todas as solicitações e ditaram assim, de forma implacável, a sorte de milhares de pessoas. Umas morreram, outras salvaram-se. As instituições de protecção civil, apesar das visitas anuais dos furacões, viveram muitas horas de inteiro e completo desnorte, incapazes de traçar um retrato real da situação, motivo que em parte explicará o tom descontraído de Bush quando falou pela primeira vez na desgraça que abalou o Sul dos Estados Unidos.

Apesar de ter sido declarado o estado de sítio, a verdade é que a polícia também não conseguiu suster as vagas de pilhagens que se seguiram nas zonas comerciais e habitacionais. Voltou-se ao ‘farwest’, com cidadãos armados de caçadeiras a defenderem os seus haveres da maneira que podiam. O Exército chegou tarde, com poucos efectivos para as necessidades de imposição da lei e da ordem.

Em síntese, o governo de Bush falhou rotundamente, muito embora esteja agora a emendar a mão com o auxílio da União Europeia e da Rússia, que se apressaram a ajudar os EUA nesta calamidade, inclusive cedendo quotas de petróleo ao governo americano.

As grandes interrogações permanecem, contudo, intactas. Como é possível que um país com um centro de previsões de tufões, que é o mais avançado do Mundo, faça tão tardiamente uma avaliação da situação e dos estragos? Como é que um país (o primeiro no contexto mundial) evidencia tanta incapacidade e incompetência para socorrer os vivos, enterrar os mortos, acudir aos feridos?

Como é que um país tão avançado no domínio da engenharia e da tecnologia sucumbe perante esta desgraça e uma cidade como New Orleans seja devastada, oferecendo a convicção de que a sua construção e crescimento se fizeram de forma anárquica e irresponsável sem nunca ter sido pensado nos efeitos destruidores dos furacões que por lá passam com frequência?

Como é que um país que se orgulha de ter polícia e forças armadas bem organizadas e equipadas para todos os cenários de catástrofe e de guerra permite que o saque se generalize e os gangs tomem conta da situação ao ponto de disparar armas ligeiras contra helicópteros da Marinha que recolhem refugiados?

Afinal, a desgraça, o terror, a anarquia, a desorientação, a pilhagem também chegam a um país tão rico e cheio de si como os EUA. Talvez o governo americano retire daqui uma lição de humildade e perceba que somos todos habitantes do mesmo planeta e devemos solidariedade uns aos outros, nas horas boas e nas horas más. Só no cinema os heróis são sempre americanos e os vilãos gentes de outras paragens."

Emídio Rangel in Correio da Manhã.

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